Confira o artigo da colega Luana Sampaio sobre a linguagem simples na administração pública

Este artigo foi originalmente publicado em O Estado de São Paulo – Estadão

A lei que transforma informação pública em controle social 

A transparência e a publicidade públicas são as portas da cidadania. Mas o juridiquês e a linguagem rebuscada mantêm essas portas trancadas. A linguagem simples é a chave que quebra o cadeado e escancara o acesso real à informação pública. 

A Política Nacional de Linguagem Simples, sancionada em novembro, é mais do que uma norma sobre escrita. Trata-se de uma lei sobre cidadania, compreensão e controle social. Ao exigir comunicação clara e compreensível por parte do Estado, a legislação produz dois efeitos democráticos imediatos. Primeiro, dá sentido material aos princípios da transparência e da publicidade, ao garantir que as informações divulgadas possam ser efetivamente entendidas. Segundo, permite que a população exerça fiscalização concreta da gestão pública. Afinal, só a compreensão viabiliza participação e controle social. 

O percurso histórico brasileiro não foi simples. Antes de 1988, prevalecia a lógica do sigilo, marcada pela cultura autoritária da ditadura militar. Foi a Constituição que rompeu esse padrão, ao transformar a publicidade em princípio, o acesso à informação em direito fundamental e a transparência em dever estatal. Assim, construiu-se a base da participação cidadã. 

Desde então, o arcabouço jurídico avançou. A Lei de Responsabilidade Fiscal operacionalizou a transparência na gestão. A Lei de Acesso à Informação consolidou o direito de solicitar dados públicos. A nova Lei de Licitações ampliou mecanismos de fiscalização popular. A Política Nacional de Linguagem Simples completa esse ciclo ao estabelecer que publicidade e transparência só produzem controle social quando a informação é compreendida. Trata-se da transição de um modelo formal para um modelo substantivo de democracia. 

Os números expõem o tamanho do problema. Segundo a PNAD Contínua 2023 (IBGE), apenas 20,5% dos brasileiros têm ensino superior completo. Pior: o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostra que 29% dos adultos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, incapazes de interpretar textos complexos, instruções técnicas ou tabelas administrativas. Enquanto isso, portais de transparência e documentos oficiais frequentemente exigem nível de compreensão equivalente ao ensino superior. O abismo entre a linguagem oficial e a capacidade real de compreensão do cidadão comum é brutal. 

Por décadas, a transparência brasileira foi essencialmente formal: relatórios publicados, dados abertos, portais no ar, mas redigidos de modo técnico e rebuscado. Expressões como “restos a pagar”, “despesa empenhada” e “dotação orçamentária” se multiplicam nos documentos oficiais, criando barreiras práticas à fiscalização popular. Havia publicidade, mas não cidadania. 

A Constituição estabelece que todo poder emana do povo e assegura, no artigo 74, que qualquer cidadão pode fiscalizar a administração pública. A Lei nº 14.133 reforça essa lógica ao exigir transparência ativa e dados abertos sobre gastos, contratos e execução de políticas públicas. Mas não há participação possível quando o conteúdo divulgado é inacessível. É essa lacuna que a Lei da Linguagem Simples busca suprir. Ao exigir comunicação clara, objetiva e compreensível, a nova lei aproxima o Estado do cidadão e transforma informação em ferramenta de controle social. 

Quando uma prefeitura divulga “Despesa empenhada: R$ 500 mil – rubrica 3390.39.16”, exclui. Quando informa “Gastamos R$ 500 mil na manutenção das escolas”, inclui. Nas esferas judiciais, o Conselho Nacional de Justiça entendeu que garantir o acesso à linguagem simples é garantir o acesso material ao judiciário. Mudanças simples como trocar “indeferimento” por “pedido negado” e “periculum in mora” por “perigo da demora” trazem um impacto positivo na compreensão das pessoas envolvidas. 

O aprimoramento do controle social previsto na nova Lei de Licitações, somado à Política Nacional de Linguagem Simples, inaugura uma nova etapa democrática. A soberania popular depende da capacidade de entender o que o Estado faz. Linguagem simples transforma transparência em cidadania. Mas leis sem implementação viram letra morta. E o esforço, sem compromisso, será só promessa, não transformação. 

O desafio é imenso, mas a direção está traçada. Cada documento reescrito, cada portal reformulado, cada atendimento simplificado é um passo na construção de uma democracia onde compreender não seja luxo, mas direito. Uma democracia onde as portas da cidadania estejam, enfim, escancaradas ao controle e à participação social. 

Opinião por Luana Ramos Sampaio

Advogada internacional, auditora do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo, pesquisadora em cidadania, escritora, é mestra em Direito na Universidade Federal do Espírito Santo e na George Washington University (EUA)

Fonte: TCE-ES

    Compartilhe!

    Melhore sua Capacidade de Gestão: Descubra as Soluções da SGP!

    Está em busca de melhorias na gestão? Descubra como a SGP pode ajudar. Entre em contato para saber mais!

    sgp soluções em gestão pública

    Entre em contato com a gente!

    Estamos aqui para ajudar. Entre em contato conosco para obter mais informações, esclarecer dúvidas ou discutir suas necessidades!